{"id":445776,"date":"2025-06-29T14:00:27","date_gmt":"2025-06-29T17:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2025\/06\/29\/dona-zica-92-anos-da-infancia-como-domestica-a-lideranca-sindical\/"},"modified":"2025-06-29T14:00:27","modified_gmt":"2025-06-29T17:00:27","slug":"dona-zica-92-anos-da-infancia-como-domestica-a-lideranca-sindical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2025\/06\/29\/dona-zica-92-anos-da-infancia-como-domestica-a-lideranca-sindical\/","title":{"rendered":"Dona Zica, 92 anos: da inf\u00e2ncia como dom\u00e9stica \u00e0 lideran\u00e7a sindical"},"content":{"rendered":"<p>Por EBC, <\/p>\n<div>\n<p>Cercada pelas montanhas do Parque da Serra do Mendanha, est\u00e1 uma pequena casa, em uma rua\u00a0de Vila Alian\u00e7a, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. A porta desta casa, de muro verde \u00e1gua, fica sempre aberta. Os desavisados que entram correm o risco de trope\u00e7ar\u00a0pipas, cerol e linha, explicados pelo entra e sai de crian\u00e7as. \u00c9 ali que mora Anazir Maria de Oliveira, a Dona Zica, de 92 anos, como ficou conhecida. Ela n\u00e3o tranca a porta, mas n\u00e3o s\u00f3 pelos bisnetos, que empinam pipa na rua. Lideran\u00e7a comunit\u00e1ria do bairro, que ajudou a urbanizar, ela \u00e9 muito procurada por seu trabalho de refer\u00eancia pol\u00edtica, social e religiosa \u2500\u00a0ela ainda \u00e9 coordenadora na Pastoral Afro-Brasileira da Arquidiocese do Rio de Janeiro.<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;O papel das igrejas, hoje, \u00e9 incentivar a luta coletiva, principalmente, a juventude&#8221;, disse ela. \u201c\u00c9 preciso incentivar os jovens a estarem nos movimentos sociais, para que possam ampliar o conhecimento sobre a sociedade e contribuir para o seu pr\u00f3prio futuro, para que haja esperan\u00e7a, entende? Nossas conquistas nunca foram f\u00e1ceis\u201d, completou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A trajet\u00f3ria de Dona Zica, que nasceu em Manhumirim, na zona da mata mineira, alcan\u00e7ou montes al\u00e9m dos do Medanha. Ela \u00e9 uma das lideran\u00e7as que fundaram, nos anos 1980, o Sindicato dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos do Munic\u00edpio do Rio de Janeiro, a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT).<\/p>\n<p>Mas, <strong>para Zica, a luta das dom\u00e9sticas sempre foi a mais importante. <\/strong>Foi a profiss\u00e3o que ela exerceu por mais tempo:\u00a0come\u00e7ou muito nova no of\u00edcio, aos 9 anos, quando chegou a ficar tr\u00eas meses sem sal\u00e1rio. Hoje, o trabalho dom\u00e9stico remunerado feito por crian\u00e7as e adolescentes at\u00e9 17 anos \u00e9 proibido e considerado uma das piores formas de trabalho infantil, por expor as pequenas a riscos de viol\u00eancias e les\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Dona Zica veio aos 11 anos para o Rio de Janeiro, acompanhar a m\u00e3e e um irm\u00e3o, em busca de uma vida melhor. Na cidade natal, deixou para tr\u00e1s nove irm\u00e3os falecidos, que n\u00e3o resistiram \u00e0queles tempos de desassist\u00eancia. <strong>Em junho de 2025, Anazir completou 92 anos junto com os dez anos da Lei Complementar 150, que regulamentou os direitos trazidos pela PEC das Dom\u00e9sticas.<\/strong> Entre eles, o Fundo de Garantia do Tempo de Servi\u00e7o (FGTS), o seguro-desemprego, aux\u00edlio-creche, sal\u00e1rio-fam\u00edlia, adicional noturno, indeniza\u00e7\u00e3o por demiss\u00e3o sem justa causa e o pagamento de horas extras.\u00a0<\/p>\n<p>A luta dela, no entanto, \u00e9 bem anterior, quando empregadas dom\u00e9sticas sequer tinham direito a folga semanal remunerada. &#8220;At\u00e9 2013, n\u00e3o t\u00ednhamos uma lei que garantisse o descanso semanal. Era um benef\u00edcio que, se os patr\u00f5es quisessem, eles davam, se n\u00e3o quisessem, n\u00e3o, entendeu?\u201d, explicou Anazir.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429333:cheio_8colunas --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429333 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Anazir Maria de Oliveira, conhecida como Dona Zica, 92 anos. Na foto, emoldurada a Medalha de Reconheimento Chiquinha Gonzaga concedida a ela pela C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro.\u00a0<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429333--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<h2>Dom\u00e9sticas na Constituinte<\/h2>\n<p>Nos anos 1980, ao defender o descanso no Congresso Nacional, ela se deparou com o recha\u00e7o do deputado Amaral Neto (na \u00e9poca, do PDS, que serviu de base para forma\u00e7\u00e3o do PFL, atual Uni\u00e3o Brasil). \u201cEle disse que, aos finais de semana, queria ser servido em casa. Mas n\u00f3s respondemos que ele nunca mais teria um voto de empregada dom\u00e9stica\u201d, relembrou.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o na Constituinte, em 1988, era para que as dom\u00e9sticas fossem consideradas uma categoria profissional. Zica liderou a Associa\u00e7\u00e3o de Trabalhadoras Dom\u00e9sticas, naquele momento, quando a entidade foi transformada no Sindicato dos Dom\u00e9sticos do Rio. Ela trabalhava no Leblon, na zona sul, e, de noite, pegava um \u00f4nibus para Bras\u00edlia, para conversar com parlamentares. No mesmo dia em que chegava na capital federal, ela\u00a0voltava, direto para o trabalho.\u00a0<strong>Com a nova Constitui\u00e7\u00e3o, elas conseguiram f\u00e9rias remuneradas de 30 dias, o 13\u00ba sal\u00e1rio, o direito ao aviso pr\u00e9vio e um dia de descanso pago durante a semana.<\/strong><\/p>\n<p>Para a atual presidenta do sindicato, Maria Izabel Monteiro, al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o pioneira, Zica \u00e9 uma figura importante na defesa de avan\u00e7os coletivos. \u201cEstamos falando de direitos sociais das pessoas menos favorecidas, de direitos humanos\u201d, frisou Monteiro.\u00a0<\/p>\n<h2>Alian\u00e7as e avan\u00e7os<\/h2>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Agencia Brasil<\/strong>, Anazir falou sobre sua trajet\u00f3ria pessoal, o sindicato, destacou o papel da Igreja Cat\u00f3lica na organiza\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria das dom\u00e9sticas em pastorais e do apoio do movimento feminista, de mais mulheres brancas.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429332:medio_4colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429332 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Anazir Maria de Oliveira, conhecida como Dona Zica, 92 anos\u00a0<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429332--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8220;A gente deu for\u00e7a para elas e elas nos deram for\u00e7a tamb\u00e9m. Adquirimos experi\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o, pela trajet\u00f3ria de reivindica\u00e7\u00e3o que elas tinham acumulado\u201d, saudou Anazir.<\/p>\n<p>Trabalhou como lavadeira e passadeira por 40 anos, \u00e9 m\u00e3e de seis filhos, e, depois dos 40 anos de idade, voltou a estudar:\u00a0cursou duas universidades,\u00a0de pedagogia e servi\u00e7o social \u2014 que concluiu aos 83 anos. Em sua trajet\u00f3ria, a ativista transformou\u00a0patroas\u00a0em aliadas, que financiaram e apoiaram suas atividades. E tamb\u00e9m fez do\u00a0esposo,\u00a0Jair Benedito de Oliveira, seu parceiro. Ele faleceu em 1997, e\u00a0todas as noites em que Zica sa\u00eda para suas luta pol\u00edtica ele esperava, da varanda, a companheira voltar de seus compromissos.<\/p>\n<p><strong>Zica reconhece os avan\u00e7os das dom\u00e9sticas, mas defende que a lei inclua as diaristas<\/strong>, cujos sal\u00e1rios e contribui\u00e7\u00f5es para previd\u00eancia s\u00e3o mais baixos e vulner\u00e1veis.\u00a0Ela defende a import\u00e2ncia da carteira de trabalho, que vem sendo desprezada por categorias e jovens, e cobra fiscaliza\u00e7\u00e3o contra a informalidade, o trabalho dom\u00e9stico escravo e infantil.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cN\u00f3s, trabalhadoras dom\u00e9sticas, temos uma heran\u00e7a que vem desde a escravid\u00e3o. Todos os trabalhadores t\u00eam suas dificuldades, e patr\u00f5es n\u00e3o pagam [sal\u00e1rio] porque querem, pagam porque s\u00e3o obrigados. Mas as empregadas dom\u00e9sticas, mesmo com patr\u00f5es sendo obrigados a pagar,\u00a0t\u00eam que correr atr\u00e1s. A gente vive ainda numa realidade em que o nosso trabalho, um trabalho bra\u00e7al, deve ser feito sem nenhuma recompensa. Contribu\u00edmos para que os nossos opressores chegassem onde chegaram, com camisas bem passadas e alimentados. Mas essa d\u00edvida n\u00e3o foi paga\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>O Brasil tem 6 milh\u00f5es de empregados dom\u00e9sticos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), de 2022, sendo que seis em dez s\u00e3o mulheres negras<\/strong>. Apenas tr\u00eas em dez contribuem para a previd\u00eancia, e somente 24,7% t\u00eam carteira assinada. A categoria tampouco tem direito ao abono salarial, pago para quem ganha at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, e s\u00f3 recebe tr\u00eas das cinco parcelas de seguro desemprego a que todos os demais trabalhadores com carteira assinada t\u00eam direito.\u00a0<\/p>\n<h2>Melhores trechos da entrevista\u00a0<\/h2>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429331:cheio_8colunas --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429331 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Dona Zica \u00e9 uma das fundadoras do Sidicato dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos do Rio de Janeiro, da Central \u00danica dos Trabalhadores(CUT) e do Partido dos Trabalhadores(PT)\u00a0<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429331--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Quando a senhora come\u00e7ou a trabalhar como empregada e como foi o despertar para a defesa de direitos na profiss\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> A minha m\u00e3e era trabalhadora dom\u00e9stica em uma fazenda, em Manhumirim. Nessa fazenda, ela criou os filhos dos patr\u00f5es, e,\u00a0ali, eu nasci, lidando com a planta\u00e7\u00e3o, a colheita de caf\u00e9. Vivi com ela at\u00e9 os meus 9 anos de idade, quando mam\u00e3e resolveu sair da \u00e1rea rural para a cidade. Ent\u00e3o, ela me colocou para trabalhar com um dos filhos dos patr\u00f5es que ela criou na fazenda. Eu tinha 9\u00a0anos,\u00a0cuidava de duas crian\u00e7as e fazia alguns servi\u00e7os da casa. Mas minha m\u00e3e tinha no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da escola, mesmo sem nunca ter frequentado. Eu fui a primeira pessoa da fam\u00edlia a entrar em uma escola. Ent\u00e3o, ela me deixou l\u00e1, desde que eu pudesse estudar.<\/p>\n<p>Eu fiquei nesta casa at\u00e9 os 11 anos, quando come\u00e7aram a atrasar o meu pagamento. No terceiro m\u00eas de atraso, eu fui embora para casa. E, aqui tem um fato que eu gosto muito de narrar, pois, mesmo eu sendo muito ing\u00eanua, uma menina, na \u00e9poca, depois de meses de atraso no pagamento, depois do patr\u00e3o ter dito que n\u00e3o ia me pagar se eu n\u00e3o voltasse a trabalhar, eu decidi que ele ia me pagar. E, como eu gostava muito de estudar \u2500 estudava com filhos da classe m\u00e9dia, com financiamento [de bolsa] da Caixa Escolar, em uma escola de freiras, naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha escola p\u00fablica \u2500\u00a0eu sonhava com os cadernos bonitos, tabuada, deles, que minha m\u00e3e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de comprar. Certo dia, eu passei na loja e comprei os cadernos. Pendurei tudo na conta dos patr\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando ele foi l\u00e1 em casa reclamar, eu apenas respondi que: gastei o que o senhor me devia. E minha m\u00e3e me apoiou. Sempre gosto de relatar esse fato para chegar nas trabalhadoras dom\u00e9sticas. Porque eu vejo nesse acontecimento, sem eu ter nenhum conhecimento, nenhuma informa\u00e7\u00e3o, a minha primeira reivindica\u00e7\u00e3o dos meus direitos enquanto trabalhadora dom\u00e9stica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> A senhora pode nos contar sobre sua participa\u00e7\u00e3o na funda\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos, como come\u00e7ou a mobiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong>\u00a0 A luta do sindicato come\u00e7a aqui na comunidade. Depois da minha segunda remo\u00e7\u00e3o (Zica foi removida de S\u00e3o Cristov\u00e3o para a Penha, e da Penha para Vila Alian\u00e7a),\u00a0para c\u00e1, a gente come\u00e7a a formar grupos para discutir melhorias sociais para o bairro\u00a0e recebe muito apoio da Igreja [Cat\u00f3lica]. A Igreja incentiva a forma\u00e7\u00e3o de grupos pastorais sociais. E, nesses pastorais, em meados dos anos 1970, o padre Bruno, um padre italiano, falou sobre a pastoral do trabalhador. E me chama para participar dessa pastoral do trabalhador, representando as empregadas dom\u00e9sticas \u2500\u00a0aqui tinha muita dom\u00e9stica. Esse padre tinha uma vis\u00e3o de mundo maravilhosa.<\/p>\n<p>Eu chamo duas amigas, e a gente come\u00e7a a participar dessas reuni\u00f5es, mas com uma dificuldade muito grande, pois, os assuntos, diss\u00eddio, negocia\u00e7\u00e3o coletiva, data-base, n\u00e3o tinham nada a ver com a gente. Ent\u00e3o, chamei as meninas para conversar e falei: a gente n\u00e3o entende nada do que os homens falam, vamos criar um grupo para n\u00f3s? E desafiamos os trabalhadores a levarem suas esposas e filhos, que eram empregados dom\u00e9sticos. Nosso grupo ia ser\u00a0 bem maior. E foi. O padre deu apoio. Em 1976, fizemos o nosso primeiro encontro de dom\u00e9sticas aqui na comunidade. E, quando n\u00f3s olhamos para aquele grupo, n\u00e3o sabia nem o que falar para aquelas mulheres. E agora? O que vou falar para elas? N\u00e3o sabia como a gente ia conduzir o trabalho. A\u00ed, eu falei assim: &#8220;Vamos falar mal das patroas&#8221;. Hoje, eu entendo que foi uma roda de conversa, uma troca de experi\u00eancia\u00a0muito boa. E foi quando eu descobri a carteira assinada. Como diarista, eu achava que n\u00e3o tinha direito \u00e0 carteira, mas eu tinha. E foi quando eu me registrei e come\u00e7ou a correr o tempo para a minha aposentadoria.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Como a senhora falou com a sua patroa? A senhora j\u00e1 estava h\u00e1 muito tempo trabalhando na mesma casa?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Eu trabalhava para tr\u00eas fam\u00edlias, mas sempre tem uma fam\u00edlia que \u00e9 mais pr\u00f3xima. Esta, mais pr\u00f3xima, que fiz uma amizade al\u00e9m do trabalho, em 1976, depois dessa reuni\u00e3o que nos reunimos para falar das patroas, pedi para assinar a minha carteira. Estava l\u00e1 h\u00e1 quatro anos. A rela\u00e7\u00e3o das empregadas dom\u00e9sticas com as patroas \u00e9 muito t\u00edmida, muitas n\u00e3o t\u00eam coragem de chegar e colocar o problema. Mas com essa patroa, de quem sou amiga at\u00e9 hoje, havia uma rela\u00e7\u00e3o honesta entre n\u00f3s. \u00c9 preciso conversar. Eu era passadeira nessa casa, e, l\u00e1, n\u00e3o parava mensalista, a patroa era muito exigente. E eu largava o ferro para explicar, que aquela n\u00e3o era a casa da empregada, que ali ela n\u00e3o podia se sentir \u00e0 vontade, fazer a refei\u00e7\u00e3o que quisesse\u2026 De tanto conversar, um dia, a m\u00e3e dela disse para mim: \u201cZica, eu tenho uma coisa para te falar\u201d. Eu perguntei:o que foi D. Elsa? E ela respondeu: \u201cVoc\u00ea transformou minha filha numa comunista\u201d. Rimos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429334:cheio_8colunas --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429334 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Dona Zica, 92 anos, mostra arquivo pessoal\u00a0a reportagem da Ag\u00eancia Brasil\u00a0em sua casa. <strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429334--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Qual foi a participa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica na organiza\u00e7\u00e3o do movimento de dom\u00e9sticas?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Em 1976, a gente criou esse grupo em Vila Alian\u00e7a. Em 1978, era um grupo de empregadas dom\u00e9sticas da zona oeste. N\u00f3s conseguimos montar grupos de trabalhadoras em v\u00e1rias par\u00f3quias. As igrejas incentivaram muito. De Magalh\u00e3es Bastos a Santa Cruz, n\u00f3s t\u00ednhamos grupos e vimos a necessidade de procurar outros espa\u00e7os de conhecimento, com outros trabalhadores, com os homens, que passaram a nos apoiar. Passamos a conhecer os sindicalistas. E, nessas conversas, descobrimos que j\u00e1 existia uma associa\u00e7\u00e3o de empregadas dom\u00e9sticas, fundada em 1961, da qual nos aproximamos. E a nossa consci\u00eancia e envolvimento v\u00e3o crescendo at\u00e9 que sou eleita presidenta em 1982. Esse momento foi muito rico, porque a classe trabalhadora estava organizada, e os sindicatos, fortalecidos. N\u00f3s nos integramos, tivemos muito apoio dos demais.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> E, hoje, qual deve ser o papel das igrejas, em geral, nos movimentos sociais, comunit\u00e1rios e dos trabalhadores?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Os movimentos sindicais e as igrejas foram os que mais fortaleceram nossa luta. As pastorais, de favela, de trabalhadores, tinham a ver com a gente, e n\u00f3s come\u00e7amos a buscar uma integra\u00e7\u00e3o com essas pastorais [grupos organizados pelas dioceses, que se re\u00fanem para discutir temas espec\u00edficos e promover a comunh\u00e3o].\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Em defesa das dom\u00e9sticas, qual foi a participa\u00e7\u00e3o dos movimentos negro e de mulheres?<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> O movimento feminista era um movimento de patroas, mas n\u00f3s chegamos junto porque tamb\u00e9m quer\u00edamos defender nossos direitos enquanto mulheres. A gente deu for\u00e7a para elas e elas nos deram for\u00e7a tamb\u00e9m. Adquirimos for\u00e7a e experi\u00eancia. Com elas, aprendemos que t\u00ednhamos for\u00e7a e o direito de ter direitos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429329:medio_4colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429329 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>Anazir Maria de Oliveira, conhecida como Dona Zica, 92 anos\u00a0<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429329--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Naquela \u00e9poca, a gente queria usar cal\u00e7a comprida. Mas\u00a0meu marido, machista, falava que \u201co homem dentro de casa sou eu\u201d. E a luta feminista nos ajudava a entender que, assim como homem, a gente trabalhava, investia na fam\u00edlia\u00a0da mesma forma, ent\u00e3o pod\u00edamos usar uma cal\u00e7a jeans, porque dev\u00edamos ser tratadas como iguais em todos os aspectos. E, assim, na Constituinte, t\u00ednhamos muito apoio dos movimentos. Tinha a Benedita da Silva, que foi e \u00e9 o maior instrumento para n\u00f3s. Ela apoiou e investiu muito na nossa pauta.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Olhando para tr\u00e1s, desde o in\u00edcio da luta das dom\u00e9sticas, a Lei Complementar 150 foi suficiente?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Os nossos direitos vieram parcelados. Em 1972, conquistamos o direito \u00e0 Previd\u00eancia Social, \u00e0 aposentadoria. Depois da Constituinte, avan\u00e7amos mais um pouco.\u00a0Mas, s\u00f3 em 2013, conseguimos equiparar os direitos aos demais trabalhadores. A PEC e a LC 150 foram o auge de uma luta que vem desde a d\u00e9cada de 1960. Foram esses anos todos para alcan\u00e7ar os direitos dos outros trabalhadores, mas ainda precisa avan\u00e7ar no direito das diaristas, por exemplo, que sofrem injusti\u00e7a. Muitas foram demitidas, na \u00e9poca da PEC, para n\u00e3o terem que ser regularizadas, ou seja, est\u00e3o sem carteira.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Como a senhora v\u00ea grupos de trabalhadores e jovens contra a carteira assinada, enquanto as dom\u00e9sticas querem a formaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Muitos trabalhadores j\u00e1 tiveram a CLT e n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nada. Queremos entrar porque n\u00e3o tem nada que nos garanta. N\u00f3s temos valor para a economia.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Por que a sociedade tem dificuldade de ver valor social nas empregadas? Como enfrentar esse problema?<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> N\u00f3s, trabalhadoras dom\u00e9sticas, temos uma heran\u00e7a. Uma heran\u00e7a que vem desde a escravid\u00e3o. Porque as mulheres negras sempre foram as prestadoras de servi\u00e7os para as fam\u00edlias, como se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a nossa pr\u00f3pria vida, certo? Ent\u00e3o, assim, eu acho que, hoje, apesar [das cobran\u00e7as] do movimento negro, as empregadas ainda n\u00e3o est\u00e3o totalmente emancipadas da escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eu sei que todos os trabalhadores t\u00eam suas dificuldades, e os patr\u00f5es n\u00e3o pagam [sal\u00e1rio] porque querem, pagam porque s\u00e3o obrigados. Mas as empregadas dom\u00e9sticas, mesmo com patr\u00f5es sendo obrigados a pagar, elas t\u00eam que correr atr\u00e1s. A gente vive ainda numa realidade de que o nosso trabalho, um trabalho bra\u00e7al, deve ser feito sem nenhuma recompensa. Contribu\u00edmos para que os nossos opressores chegassem aonde chegaram, com camisas limpas e bem passadas e alimentados. Mas essa d\u00edvida n\u00e3o foi paga.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=429328:cheio_8colunas --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=429328 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Anazir Maria de Oliveira, conhecida como Dona Zica, come\u00e7ou a trabalhar como dom\u00e9stica aos 9 anos e se formou assistente social aos 83\u00a0&#8211; <strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=429328--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Como a senhora v\u00ea o Congresso Nacional hoje, h\u00e1 espa\u00e7o para avan\u00e7ar com amplia\u00e7\u00e3o de direitos das dom\u00e9sticas e demais trabalhadores?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Do jeito que est\u00e1, n\u00e3o s\u00f3 as dom\u00e9sticas, mas a classe trabalhadora, precisam voltar a se mobilizar. \u00c9 preciso voltar com a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As lutas precisam ser em conjunto. Se uma categoria est\u00e1 revoltada, precisa se unir a outras. A sociedade, junta, em luta, consegue mudan\u00e7as. A luta pol\u00edtica e social \u00e9 a luta por constru\u00e7\u00e3o de futuros.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Por fim, como a senhora trouxe seu esposo para o movimento, como os homens podem apoiar as esposas que s\u00e3o sindicalistas?<\/p>\n<p><strong>Dona Zica:<\/strong> Quando eu comecei a participar das discuss\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o de uma poss\u00edvel central sindical, eu viajei muito. Tinha muitos encontros fora do Rio, essa coisa toda. Eu me casei com 17 anos, mas s\u00f3 fui sair de casa sem marido\u00a0e filho em 1976, j\u00e1 com 43 anos, quando comecei as andan\u00e7as da igreja. Naquela \u00e9poca, a maioria dos sindicalistas tamb\u00e9m eram atuantes nas pastorais. E, assim, fui conversando com meu esposo, com bastante anteced\u00eancia, avisando sobre os eventos.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, ele me perguntava: &#8220;Mas essas mulheres n\u00e3o t\u00eam o que fazer dentro de casa? Para passar um dia todo fora?&#8221;, mas fui dobrando ele, explicando o que discut\u00edamos, relatava as discuss\u00f5es e o motivo de chegar tarde em casa. Ent\u00e3o, com o tempo, ele, pedreiro, foi me ajudando a organizar os congressos e atividades. E a ficar com os filhos, crescidos, j\u00e1, e a casa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>      <!-- Relacionada --><\/p>\n<p>            <!-- Relacionada -->\n    <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por EBC, Cercada pelas montanhas do Parque da Serra do Mendanha, est\u00e1 uma pequena casa, em uma rua\u00a0de Vila Alian\u00e7a, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. A porta desta casa, de muro verde \u00e1gua, fica sempre aberta. 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