{"id":461867,"date":"2026-06-05T10:01:28","date_gmt":"2026-06-05T13:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/06\/05\/quando-borboletas-furiosas-se-tornam-mulheres-negras-nos-e-os-livros\/"},"modified":"2026-06-05T10:01:28","modified_gmt":"2026-06-05T13:01:28","slug":"quando-borboletas-furiosas-se-tornam-mulheres-negras-nos-e-os-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/06\/05\/quando-borboletas-furiosas-se-tornam-mulheres-negras-nos-e-os-livros\/","title":{"rendered":"Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: N\u00f3s e os livros"},"content":{"rendered":"<p>Por EBC, <\/p>\n<div>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o de mulheres negras no mercado editorial brasileiro, que historicamente privilegia homens brancos, faz com que suas hist\u00f3rias ganhem vida, dignidade e humanidade. <strong>A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da autora Cidinha da Silva, que lan\u00e7a <em>Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: N\u00f3s e os livros<\/em>, nesta sexta-feira (5), durante mesa de conversa n\u2019A Feira do Livro.\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cHist\u00f3rias novas e desconhecidas t\u00eam sido contadas; personagens antes tratados como utens\u00edlios de casa, objetos de cama, mesa e banho &#8211; trabalhadoras dom\u00e9sticas e outras fun\u00e7\u00f5es laborais subalternizadas e mal remuneradas\u201d, disse Cidinha da Silva, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O lan\u00e7amento da autora ocorre a partir das 13h, no Tablado Liter\u00e1rio M\u00e1rio de Andrade. Na obra, ela investiga as tens\u00f5es, armadilhas e insurg\u00eancias que atravessam a experi\u00eancia de escritoras negras no mercado editorial. Ap\u00f3s a programa\u00e7\u00e3o, Cidinha receber\u00e1 o p\u00fablico em sess\u00e3o de aut\u00f3grafos.<\/p>\n<p>A escritora ressalta que \u00e9 preciso enfrentar os crit\u00e9rios racistas, machistas, mis\u00f3ginos e lesbof\u00f3bicos que t\u00eam privilegiado os homens brancos nesse espa\u00e7o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSujeitos que n\u00e3o nasceram em ber\u00e7o de livros, que n\u00e3o herdaram bibliotecas de pais, av\u00f3s, trisav\u00f3s, t\u00eam conseguido falar, criar, fabular hist\u00f3rias, para as quais h\u00e1 muito interesse.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A trajet\u00f3ria de Carolina Maria de Jesus, lembrou a autora, abriu caminhos para mais escritoras negras, al\u00e9m de revelar elementos como: <strong>\u201ca coragem de alimentar um projeto liter\u00e1rio, mesmo em condi\u00e7\u00f5es absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descart\u00e1-la\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da programa\u00e7\u00e3o integralmente gratuita do festival liter\u00e1rio, cada visitante pode escolher dois t\u00edtulos de uma sele\u00e7\u00e3o diversa, disponibilizados gratuitamente, na tenda da prefeitura de S\u00e3o Paulo. No estande, o p\u00fablico ter\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre a rede de bibliotecas municipais, ferramenta de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 leitura.<\/p>\n<p>Dois dos t\u00edtulos dispon\u00edveis s\u00e3o <em>Escritoras de Cadernos Negros<\/em>, com textos de Esmeralda Ribeiro e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo; e <em>Olhos de Azeviche<\/em>, que re\u00fane dez autoras negras, como a pr\u00f3pria Cidinha da Silva e Geni Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Confira os principais trechos da entrevista com Cidinha da Silva:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Qual \u00e9 o lugar das mulheres negras no mercado editorial atualmente?<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; No mundo das editoras, o lugar ocupado pelas autoras negras \u00e9 diverso e est\u00e1 muito relacionado ao poder de fogo da autora em tela, mensurado, por exemplo, pelo interesse manifesto de outras editoras em public\u00e1-la, o que leva a editora da vez a oferecer boas condi\u00e7\u00f5es para ter mais t\u00edtulos dela no cat\u00e1logo, ou mesmo para fideliz\u00e1-la. A defini\u00e7\u00e3o desse lugar deve-se tamb\u00e9m \u00e0s cotas raciais, toda editora quer uma autora negra para chamar de sua.<\/p>\n<p>No que concerne aos eventos liter\u00e1rios, \u00e9 o lugar de alguns grandes nomes que ocupam espa\u00e7os por elas mesmas, pelo reconhecimento do trabalho constru\u00eddo, ou seja, j\u00e1 ultrapassaram as cotas de participa\u00e7\u00e3o destinadas \u00e0s escritoras negras, s\u00e3o elas Ana Maria Gon\u00e7alves, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Djamila Ribeiro, Elisa Lucinda, Marilene Felinto, Ana Paula Maia e Grace Pass\u00f4. Tem um outro pelot\u00e3o em ascens\u00e3o que em breve integrar\u00e1 o primeiro, composto por mulheres como Bianca Santana, Luciany Aparecida, Eliane Marques, B\u00e1rbara Karine, Carla Akotirene e Rosane Borges.<\/p>\n<p>Depois vem um terceiro pelot\u00e3o que ocupa um lugar de altern\u00e2ncia na cota destinada a autoras negras nos eventos liter\u00e1rios de diferentes portes, por motivos como contemplar uma autora negra por ano ou edi\u00e7\u00e3o do evento ou disparidade de cach\u00eas. O ideal seria contratar as autoras X, Y e Z, mas, como o cach\u00ea destas \u00e9 considerado muito alto e a agenda muito ocupada por eventos que realmente valem a pena, os organizadores fazem cruzamentos de visibilidade p\u00fablica, n\u00famero de seguidores em redes sociais, hist\u00f3rico de participa\u00e7\u00e3o em outros eventos, humores, local de resid\u00eancia no pa\u00eds &#8211; valor do bilhete a\u00e9reo -, traquejo para tirar a galera do ch\u00e3o e capacidade geral de entretenimento. Depois de descreverem e solucionarem a equa\u00e7\u00e3o, as substitutas s\u00e3o escolhidas e convidadas.<\/p>\n<p>[Outro elemento para a escolha \u00e9 a] avalia\u00e7\u00e3o de linguagem da autora em tela &#8211; doce, contemplativa, \u00e1cida, raivosa, amarga, assertiva, ressentida, vitimista, altiva, vingativa, ou aquilo que os organizadores consideram pondera\u00e7\u00e3o &#8211; para definir o que \u00e9 mais adequado ao momento, baseado nos interesses dos patrocinadores, do p\u00fablico, do peso na bolsa de valores da imprensa cultural, da cr\u00edtica liter\u00e1ria etc. [Al\u00e9m da] capacidade de articula\u00e7\u00e3o e tr\u00e2nsito junto aos donos e donas da banca, ou seja, aos <em>players<\/em> que definem quem entra e quem sai de cena, quem \u00e9 lembrado e quem \u00e9 esquecido, quem ficar\u00e1 sob holofotes e quem ser\u00e1 relegado \u00e0s sombras ou \u00e0s feras.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>&#8211; Por muito tempo, as principais refer\u00eancias no mercado editorial eram homens brancos. Voc\u00ea avalia que h\u00e1 alguma mudan\u00e7a nesse modelo?<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; Sim, h\u00e1 mudan\u00e7as, mas ainda estamos longe de alcan\u00e7ar um percentual de escritoras que se aproxime do n\u00famero avassalador de leitoras que comp\u00f5em o todo da audi\u00eancia leitora. O que fazer para mudar? Enfrentar de peito aberto e com medidas propositivas os crit\u00e9rios racistas, machistas, mis\u00f3ginos, lesbof\u00f3bicos que t\u00eam privilegiado os homens brancos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>&#8211; Quais obst\u00e1culos as mulheres negras enfrentaram e ainda enfrentam para inser\u00e7\u00e3o nesse espa\u00e7o?<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; Os obst\u00e1culos enfrentados s\u00e3o aqueles atinentes \u00e0s sociedades racializadas &#8211; hierarquicamente organizadas por crit\u00e9rios raciais &#8211; e racistas como a sociedade brasileira. Neste espa\u00e7o, como em todos os outros, a inser\u00e7\u00e3o se deu e se d\u00e1 pela luta pol\u00edtica, afinal, ningu\u00e9m aqui adormece ouvindo a can\u00e7\u00e3o da meritocracia est\u00e9tica, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<blockquote>\n<p>[As estrat\u00e9gias que viabilizaram essa inser\u00e7\u00e3o incluem] n\u00e3o alimentar ilus\u00f5es, ter aten\u00e7\u00e3o incessante aos jogos de interesses e de poder, compreender que nada est\u00e1 ganho, tudo est\u00e1 em disputa.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>&#8211; Que resultados e reflexos podemos observar a partir da maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres negras no mercado editorial?<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; Hist\u00f3rias novas e desconhecidas t\u00eam sido contadas; personagens antes tratados como utens\u00edlios de casa, objetos de cama, mesa e banho &#8211; trabalhadoras dom\u00e9sticas e outras fun\u00e7\u00f5es laborais subalternizadas e mal remuneradas -, t\u00eam ganhado vida, dignidade e humanidade. A express\u00e3o \u201cbibliodiversidade\u201d tem tido os sentidos ampliados. Sujeitos que n\u00e3o nasceram em ber\u00e7o de livros, que n\u00e3o herdaram bibliotecas de pais, av\u00f3s, trisav\u00f3s, t\u00eam conseguido falar, criar, fabular hist\u00f3rias, para as quais h\u00e1 muito interesse.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A gente refloresta os imagin\u00e1rios, como nos ensinou a irm\u00e3 guarani, Geni N\u00fa\u00f1ez, e, reflorest\u00e1-los \u00e9 potencializar a vida em alternativas mais saud\u00e1veis e plenas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> &#8211; Gostaria que voc\u00ea citasse algumas das mulheres negras fundamentais para abrir os caminhos no mercado editorial brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; S\u00e3o muitas, em diferentes \u00e9pocas, citarei algumas, embora seja consciente do risco de cometer grandes injusti\u00e7as. Dentre as escritoras precursoras temos Maria Firmina dos Reis e Auta de Souza, nomes que tiveram exist\u00eancia isolada no s\u00e9culo 19 e cujo significado foi recuperado mais de s\u00e9culo depois de elas terem partido.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno Carolina Maria de Jesus tamb\u00e9m escancarou portas e mostrou pelo menos tr\u00eas coisas fundamentais: a coragem de alimentar um projeto liter\u00e1rio, mesmo em condi\u00e7\u00f5es absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descart\u00e1-la. A gente aprendeu e aprende muito com a trajet\u00f3ria de Carolina.<\/p>\n<p>Antonieta de Barros e Ruth Guimar\u00e3es foram autoras negras que constru\u00edram a obra e um lugar na literatura brasileira nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, totalmente \u00e0 revelia dos holofotes. Geni Guimar\u00e3es tem aproxima\u00e7\u00f5es de Ruth Guimar\u00e3es, as duas s\u00e3o do interior de S\u00e3o Paulo, atuaram como professoras e ousaram bater na porta das editoras estabelecidas para apresentar seu trabalho, conseguiram, se firmaram, foram premiadas e isso nos abriu portas.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo \u00e9 um dos fen\u00f4menos contempor\u00e2neos de acolhimento do p\u00fablico, vendagem de livros e reconhecimento da cr\u00edtica, tendo sido a primeira representante consagrada daquilo que desde os anos 1980 tem sido compreendido como literatura negra.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>&#8211; Quais outras contempor\u00e2neas voc\u00ea citaria?<\/p>\n<p><strong>Cidinha da Silva<\/strong> &#8211; A meu ver, existem quatro escritoras contempor\u00e2neas pouco incensadas que ao longo de d\u00e9cadas t\u00eam feito um trabalho despreocupado dos ditames do mercado e muito focado em projetos liter\u00e1rios consistentes, implementados como poss\u00edvel nas editoras tradicionais: Marilene Felinto, Elisa Lucinda, Helo\u00edsa Pires Lima e Ana Paula Maia.<\/p>\n<p>Djamila Ribeiro tem tamb\u00e9m atua\u00e7\u00e3o gigantesca em nosso favor no mercado editorial brasileiro e n\u00e3o abriu apenas portas, abriu comportas. A exist\u00eancia de rios de diferentes matizes tem sido poss\u00edvel a partir de suas articula\u00e7\u00f5es e projetos, [como] a cole\u00e7\u00e3o <em>Feminismos Plurais<\/em> e o espa\u00e7o de protagonismo negro ocupado por ela, [que] merece estudos aprofundados. A capacidade de negocia\u00e7\u00e3o de Djamila no mercado tamb\u00e9m \u00e9 algo admir\u00e1vel, inspirador e definidor de novos patamares para autorias negras.<\/p>\n<p>B\u00e1rbara Karine, que me parece seguir com estilo pr\u00f3prio as veredas abertas por Djamila, tamb\u00e9m ensina muito, principalmente \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es. Por fim, nossa imortal da ABL [Academia Brasileira de Letras], Ana Maria Gon\u00e7alves, que \u00e9 acad\u00eamica, reconhecida, premiada e imortalizada tamb\u00e9m pelo samba &#8211; samba-enredo da Portela em 2024 -, abrindo possibilidades para que outras autoras tamb\u00e9m sejam imortalizadas em vida pelo cancioneiro popular.<\/p>\n<p>      <!-- Relacionada --><\/p>\n<p>            <!-- Relacionada -->\n    <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por EBC, A inser\u00e7\u00e3o de mulheres negras no mercado editorial brasileiro, que historicamente privilegia homens brancos, faz com que suas hist\u00f3rias ganhem vida, dignidade e humanidade. 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