{"id":464359,"date":"2026-07-24T21:22:23","date_gmt":"2026-07-25T00:22:23","guid":{"rendered":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/24\/coletanea-reune-poetas-invisibilizadas-ao-longo-de-quatro-seculos\/"},"modified":"2026-07-24T21:22:23","modified_gmt":"2026-07-25T00:22:23","slug":"coletanea-reune-poetas-invisibilizadas-ao-longo-de-quatro-seculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/24\/coletanea-reune-poetas-invisibilizadas-ao-longo-de-quatro-seculos\/","title":{"rendered":"Colet\u00e2nea re\u00fane poetas invisibilizadas ao longo de quatro s\u00e9culos"},"content":{"rendered":"<p>Por EBC, <\/p>\n<div>\n<p><strong>Para as autoras mulheres, s\u00f3 escrever nunca \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. Autora do livro<em> Inesquec\u00edveis: Quatro S\u00e9culos de Poetas Brasileiras<\/em>\u00a0(Bazar do Tempo), a pesquisadora Ana R\u00fcsche conclui que essa \u00e9 uma marca identificada entre os nomes reunidos na obra, como Martha de Hollanda (1903\u20131950), Patr\u00edcia Galv\u00e3o, a Pagu (1910-1962)\u00a0e Beatriz Nascimento (1942-1995).<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cS\u00e3o mulheres que n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam que escrever, mas t\u00eam que organizar a luta pol\u00edtica, t\u00eam que organizar a pr\u00f3pria cr\u00edtica. Isso \u00e9 muito comum na vida das poetas, elas sempre fazem v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo: elas traduzem, publicam, organizam outras mulheres. S\u00f3 escrever nunca \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o\u201d, declarou Ana, que \u00e9 professora de teoria liter\u00e1ria na Universidade de Bras\u00edlia (UnB), em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na obra, que tem coautoria de Lubi Prates, <strong>as escritoras tra\u00e7am um panorama da poesia brasileira escrita por mulheres, do s\u00e9culo 18\u00a0\u00e0s primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 21, que sofreram com o apagamento hist\u00f3rico<\/strong>. Al\u00e9m de reunir poemas das autoras, o livro apresenta os perfis e suas trajet\u00f3rias pouco conhecidas, al\u00e9m de difundir pesquisas sobre essas poetas. Com isso, a obra prop\u00f5e novas refer\u00eancias para o estudo da literatura brasileira.<\/p>\n<p><strong>As autoras viveram momentos-chave da hist\u00f3ria do Brasil, como o movimento pela independ\u00eancia, a luta pelo voto feminino e o fortalecimento da imprensa feminista, chegando \u00e0 recente expans\u00e3o da diversidade no mercado editorial, com representantes contempor\u00e2neas como Concei\u00e7\u00e3o Evaristo.<\/strong><\/p>\n<p>Ana R\u00fcsche participou de roda de conversa na Casa Sete Selos + Gama, Megafauna e Supers\u00f4nica, que levou o nome de seu livro, na noite desta quinta-feira (23), durante a 24\u00aa\u00a0edi\u00e7\u00e3o da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip). Participaram da mesa tamb\u00e9m Claudia Roquette Pinto, Esmeralda Ribeiro, Maria Manoella e Mar\u00edlia Kubota.<\/p>\n<p>Neste ano, a autora homenageada da Flip \u00e9 a poeta Orides Fontela (1940-1998), cuja obra tamb\u00e9m permaneceu invisibilizada diante do grande p\u00fablico durante boa parte da vida e mesmo depois de sua morte.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Qual \u00e9 o diferencial da obra <em>Inesquec\u00edveis: Quatro S\u00e9culos de Poetas Brasileiras<\/em>?<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche: <\/strong>O livro recupera obras que estavam esquecidas e separadas. Um dos m\u00e9ritos do livro \u00e9 fazer a reuni\u00e3o, organizar esse<em> corpus<\/em> de poemas que estavam todos fragmentados, espalhados de alguma forma. Eu acho que s\u00f3 de mostrar o que existe \u00e9 uma grande contribui\u00e7\u00e3o, porque a gente n\u00e3o s\u00f3 conta a hist\u00f3ria, mas comprova ali o que existe esteticamente, para que as pessoas possam procurar outras poetas ou mais obras dessas poetas que trouxemos para o livro.<\/p>\n<p>Porque recuperar a obra \u00e9 muito dif\u00edcil e por isso que a gente se vale do trabalho pr\u00e9vio de historiadoras, jornalistas e estudiosas da literatura escrita por mulheres desde o s\u00e9culo 19, acho que isso \u00e9 importante mencionar. Houve muitas obras anteriores de recupera\u00e7\u00e3o de obras [de cada poeta], que inclusive s\u00e3o citadas e usadas no livro.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Como surgiu a ideia para esse livro?<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche:<\/strong> A ideia do livro surgiu a partir de um curso que Lubi Prates deu sobre as poetas mulheres esquecidas. Para isso, ela se valeu de um livro que \u00e9 superimportante: o <em>Dicion\u00e1rio de Escritoras Mulheres<\/em>, da Nelly Novaes Coelho. A Lubi selecionou as poetas e foi atr\u00e1s dos poemas. S\u00f3 que tem poemas, por exemplo, que foram recuperados em tese [acad\u00eamica]. No caso da [poeta] Beatriz Brand\u00e3o [1779-1868], tem a tese que se chama <em>Fruto Contestado<\/em>, da historiadora Cl\u00e1udia Pereira, que recupera essa obra, ela passou 13 anos em um arquivo.<\/p>\n<p>Mas tem outras autoras cujos poemas est\u00e3o completamente esparsos, espalhados, e a gente teve que consultar, por exemplo, a hemerotecas. No caso da \u00c2ngela Rangel, que \u00e9 a nossa primeira poeta, n\u00f3s conseguimos os fac-s\u00edmiles. Ent\u00e3o, a gente tem que consultar o livro digitalizado, que \u00e9 superantigo l\u00e1 do s\u00e9culo 18, e a partir disso refazer. Ent\u00e3o \u00e9 bem manual o sistema mesmo. Em alguns casos, \u00e9 bem dif\u00edcil. \u00c0s vezes, surpreendentemente o que a gente achava que era um poema completo\u00a0era um fragmento de um poema.<br \/>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=469776:cheio_8colunas --><\/p>\n<p>    <!-- END scald=469776 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<p>A escritora Ana R\u00fcsche participa da 24\u00aa Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty &#8211; <strong>Foto:\u00a0Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=469776--><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Quais lutas atravessam a vida e a obra dessas poetas?<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche:<\/strong> Eu acho que publicar por si s\u00f3 \u00e9 uma luta hist\u00f3rica, isso entre homens e mulheres, porque [havia dificuldade] no acesso \u00e0 publica\u00e7\u00e3o no Brasil. E n\u00f3s tivemos v\u00e1rios per\u00edodos de censura no Brasil ou ent\u00e3o \u201cregulamenta\u00e7\u00e3o estatal da imprensa\u201d, como acontecia no per\u00edodo colonial ou no imp\u00e9rio, que tinha uma regulamenta\u00e7\u00e3o da imprensa. Ent\u00e3o, demora para os livros de mulheres aparecerem com suas obras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma luta que tamb\u00e9m \u00e9 bem antiga, desde o Brasil colonial at\u00e9 os dias atuais, \u00e9 pela educa\u00e7\u00e3o de outras mulheres. Eu sempre gosto de falar que nem a Virg\u00ednia Woolf teve acesso \u00e0 universidade. O acesso a uma instru\u00e7\u00e3o de qualidade e universal demora muito para acontecer e ainda n\u00e3o aconteceu no Brasil. A gente teve muitas mulheres que brigaram pela educa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 o da Maria Firmina dos Reis, que era uma mulher negra e estava muito preocupada com a educa\u00e7\u00e3o de garotas negras e empobrecidas. Tem muitas poetas que foram professoras, como a Narcisa Am\u00e1lia. Tem as jornalistas, que expandiram a imprensa feminina, a imprensa escrita por mulheres, como a Patr\u00edcia Galv\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Tem tamb\u00e9m a luta pelo voto feminino.<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche:<\/strong> No come\u00e7o do s\u00e9culo 20, a gente tem [uma quest\u00e3o] muito importante que \u00e9 a luta pelo voto feminino. Tem v\u00e1rias mulheres que fizeram parte disso. Inclusive eu brinco que a gente perde as poetas para a pol\u00edtica, porque elas se engajaram tanto que elas pararam de escrever poesia. A Martha de Hollanda \u00e9 uma das [autoras] que t\u00eam uma preponder\u00e2ncia nessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no s\u00e9culo 20, aparecem muito as mulheres que organizaram, por exemplo, o movimento negro: a Beatriz de Nascimento, a Miriam Alves, a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, que s\u00e3o nomes com for\u00e7a muito grande para discutir a quest\u00e3o racial.<\/p>\n<p>S\u00e3o mulheres que n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam que escrever, mas t\u00eam que organizar a luta pol\u00edtica, t\u00eam que organizar a pr\u00f3pria cr\u00edtica. Isso \u00e9 muito comum na vida das poetas, elas sempre fazem v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo: elas traduzem, publicam, organizam outras mulheres. S\u00f3 escrever nunca \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. E, nos dias atuais, o nosso grande desafio \u00e9 fazer com que essa produ\u00e7\u00e3o consiga ser lida.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Tem um poema que \u00e9 da Ad\u00e9lia Fonseca (1827-1920)\u00a0e fala sobre o feminic\u00eddio de Julia Fetal, ainda que o termo n\u00e3o tenha sido usado na \u00e9poca, pelo ex-noivo\u00a0dela. Voc\u00ea poderia contar a hist\u00f3ria em torno dele?<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche:<\/strong> Essa postura de den\u00fancia do feminic\u00eddio \u00e9 bem antiga. A gente v\u00ea qu\u00e3o antigo \u00e9 isso, e a for\u00e7a da poesia em fazer essa den\u00fancia, porque a gente, \u00e0s vezes, acha que a literatura n\u00e3o \u00e9 capaz de nada. Mas isso ajudou a opini\u00e3o p\u00fablica a entender o que estava acontecendo nesse caso. N\u00e3o foi simplesmente uma morte, foi um assassinato muito espec\u00edfico cometido por uma for\u00e7a patriarcal.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia desse tipo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m poder observar como isso est\u00e1 entranhado na cultura brasileira, n\u00e3o \u00e9 algo que aparece misteriosamente no s\u00e9culo 21, essa licen\u00e7a para matar \u00e9 muito antiga. E \u00e9 muito antigo tamb\u00e9m o sentimento de injusti\u00e7a. [Neste poema,] tem esse senso de injusti\u00e7a profunda, foi um poema muito famoso naquele momento hist\u00f3rico, ele repercutiu. Inclusive, um dos versos dele est\u00e1 na l\u00e1pide da Julia Fetal.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Voc\u00ea escreveu um romance em que utilizou a experi\u00eancia que teve na constru\u00e7\u00e3o do <em>Inesquec\u00edveis<\/em>, voc\u00ea me conta um pouquinho como foi isso?<\/p>\n<p><strong>Ana R\u00fcsche:<\/strong> Eu fiz uma [personagem] pesquisadora que recupera a obra de um poeta, no caso o homem, mas justamente por causa desse livro. Embora seja uma obra fict\u00edcia, um poeta fict\u00edcio dos anos 80 que tinha HIV e poemas fict\u00edcios, ela parte de uma experi\u00eancia real. Porque agora que o livro est\u00e1 pronto, fica chique. Mas, no dia a dia, as pessoas acham pouco importante a pesquisa: \u2018por que voc\u00ea est\u00e1 recuperando uma obra de uma pessoa que ningu\u00e9m leu no s\u00e9culo 19?\u2019<\/p>\n<p>Eu tenho certeza que as pesquisadoras que fizeram essas teses [sobre poetas mulheres e suas obras] em que n\u00f3s nos baseamos ouviram isso em algum momento. Ent\u00e3o esse senso de despropor\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o importante \u00e9 a mem\u00f3ria eu tento retratar bem no <em>Carga Viva<\/em>.<\/p>\n<p>Justamente a pesquisadora Cl\u00e1udia Pereira, que eu citei antes, da tese <em>Fruto Contestado<\/em>, ela ficou 13 anos num arquivo. A gente tinha que colocar um pedestal para esse tipo de pesquisadora, porque ela est\u00e1 nos devolvendo a nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica. \u00c9 uma for\u00e7a muito espec\u00edfica de mergulhar numa pesquisa que todo mundo acha que n\u00e3o vale a pena. Ent\u00e3o, eu tentei assim trazer um pouquinho desse drama tamb\u00e9m para a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>*A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.<\/em><\/p>\n<p>      <!-- Relacionada --><\/p>\n<p>            <!-- Relacionada -->\n    <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por EBC, Para as autoras mulheres, s\u00f3 escrever nunca \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. 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