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Fome mundial atinge 645 milhões de pessoas, diz relatório da ONU

Por EBC,

A população mundial em situação de fome diminuiu pelo terceiro ano consecutivo e chegou, em 2025, a 645 milhões de pessoas, representando uma redução de quase 14 milhões de pessoas que sofreram com fome em comparação com 2024 e 43 milhões, em comparação com 2022.

As informações constam no relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI, na sigla em inglês), elaborado por cinco instituições: a própria FAO, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A avaliação da fome global calcula que 7,8%, da população mundial sofreu de fome em 2025. Em 2026, este índice era de 8,6%. Percentual que caiu para 8,1%, em 2024.

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Os dados foram divulgados nesta terça-feira (21), na sede da FAO, em Roma (Itália), durante a 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da organização.

Aos presentes no evento, o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, enfatizou que é preciso avançar mais rápidos.

“Acabar com a fome e tornar dietas saudáveis acessíveis exige compromisso político, investimento sustentado e políticas que o facilitem.”

Em discurso na 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da FAO, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) do Brasil, Fernanda Machiaveli, destacou que a fome é evitável. “Quando os governos priorizam o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, é possível alcançar avanços concretos.”

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Insegurança alimentar 

O relatório global de 2026 também destaca que houve progresso global no número de pessoas que viviam em situação de insegurança alimentar moderada ou severa.

Esta condição de extrema de vulnerabilidade ocorre quando as pessoas consomem alimentos em quantidade insuficiente para uma vida saudável ou comida com menor qualidade nutricional.

A FAO estima que 25,8% da população mundial (cerca de 2,1 bilhões de pessoas) vivia em situação de insegurança alimentar moderada ou severa até 2025. O percentual representa uma queda em relação aos 27,1% em 2024 e 28,7% em 2020 – quase 86 milhões a menos do que em 2024 e 135 milhões a menos do que em 2020 – embora ainda esteja acima dos níveis pré-pandemia.

Disparidades continentais

Apesar da redução contínua nos níveis da fome, a recuperação é desigual entre os continentes. A principal publicação anual sobre fome no mundo indica que, enquanto a Ásia, a América Latina e o Caribe apresentam melhorias graduais nos últimos anos três, a África é, atualmente, o continente com o maior número absoluto de pessoas famintas, em um contexto de rápido crescimento populacional, diz a FAO. Estima-se que uma em cada cinco pessoas na África, ou seja, 20% enfrentaram a fome em 2025, o que corresponde a cerca de 309 milhões de pessoas famintas na África. Em 2024, este índice foi ligeiramente maior: 20,3% da população.

Quando avaliada a situação de insegurança alimentar moderada ou severa, em 2025, mais da metade da população africana (56,6%) vivia nesta condição, em comparação com 22,9% na América Latina e Caribe, 8,7% na América do Norte e Europa, e 20,3% na Ásia.

Mais vulneráveis

A insegurança alimentar também permanece maior nas áreas rurais do que nas áreas urbanas e periferias, enquanto as mulheres continuam sendo desproporcionalmente afetadas, embora a diferença de gênero tenha diminuído ligeiramente em 2025.

Globalmente, apenas 62,7% das mulheres entre 15 e 49 anos atingiram a diversidade alimentar mínima priorizada no consumo saudável entre 2021 e 2025, o que significa que cerca de uma em cada três mulheres não a atingiu no planeta.

No recorte continental, a menor prevalência de transtorno de diversidade alimentar em mulheres foi observada na África (43%), seguida pela Ásia (65%) e América Latina e Caribe (77,5%).

Enquanto a maior de diversidade alimentar foi registrada na América do Norte e Europa (79,8%).

Ritmo de avanço

Os avanços globais na nutrição de mães e crianças são lentos e marginais, o que ameaça o cumprimento das metas internacionais estipuladas para 2030.

Apenas 30,8% das crianças entre 6 e 23 meses no mundo consomem uma alimentação minimamente diversificada.

Entre os principais indicadores de alerta estão:

·         desnutrição infantil grave: 150 milhões de crianças menores de 5 anos ainda sofrem de atraso no crescimento;

·         anemia em mulheres: O quadro de anemia entre mulheres em idade fértil (15 a 49 anos) está piorando globalmente.

·         obesidade adulta: a prevalência cresceu de 12,1% (2012) para 16,2% (2024), descumprindo a meta global de parar esse crescimento até 2025.

Entre os cenários destacados na análise global com alguma evolução está o aumento do aleitamento materno exclusivo em todas as regiões do planeta para as quais há dados disponíveis e houve registro da diminuição da prevalência do retardo infantil na África. 

Custo da alimentação saudável

O relatório ressalta que os custos continuam sendo um grande desafio para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 2 de, até 2030, erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição.

O número de pessoas que não podem pagar uma alimentação saudável no mundo caiu de 2,97 bilhões (37,4% da população mundial) em 2021 para 2,69 bilhões (32,7%) em 2025.

O cenário é pior na África de 2025, onde 66,6% da população não podia arcar com os custos de uma dieta saudável. O percentual é mais do que o dobro da Ásia, América Latina e Caribe.

Para calcular este número, a FAO-ONU adota a Paridade do Poder de Compra (PPC) – em inglês, purchasing power parity (PPP), que converte as moedas locais para o dólar ajustando as diferenças de custo de vida e ainda considera variáveis como tamanho da população, perfil de renda e custo médio de uma cesta de alimentos saudável. Desta forma, a unidade de medida usada consegue comparar o poder aquisitivo entre países.

Por essa metodologia, em 2025, o custo médio de uma dieta saudável no mundo aumentou para U$ 4,28 com paridade de poder de compra (PPA) por pessoa e dia, acima de U$ 3,44 PPP, em 2021, e U$2,94, em 2017. América Latina e Caribe registraram o maior custo (U$ 4,91 PPP).

A avalia destaca que é urgente o desafio de enfrentar os fatores estruturais por trás do custo persistentemente elevado de uma dieta saudável.

Para os organismos internacionais que elaboraram o SOFI 2026, reduzir o custo de uma alimentação saudável exige políticas específicas que ampliem a oferta de alimentos nutritivos e, ao mesmo tempo, reduzam os custos estruturais em toda a cadeia produtiva da agricultura.

“Isso inclui investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, irrigação e cadeias de frio, além de reformas em subsídios, facilitação do comércio e marcos regulatórios”, diz o texto do relatório.

A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, destacou que o trabalho ainda está longe de ser concluído, mas que os governos podem mudar a realidade de quase um terço da humanidade que ainda não conseguir acesso a uma alimentação saudável.

“O custo dos alimentos saudáveis continua sendo um dos maiores obstáculos para a efetivação do direito humano à alimentação adequada. A contribuição mais importante desta edição do SOFI é ir além da descrição do problema. O relatório nos ajuda a compreender por que as dietas saudáveis continuam sendo caras”, pontuou a ministra.

Fernanda Machiaveli focou na instabilidade dos preços dos alimentos, que continua sendo uma das maiores ameaças ao acesso à alimentação saudável, especialmente para as populações mais vulneráveis.

A fome pode aumentar

O relatório anual também oferece projeções do cenário da fome global para os próximos cinco anos e considera fatores que podem agravar a situação.

Entre os mais destacados estão os efeitos do conflito no Oriente Médio e de eventos climáticos extremos, como o El Niño em 2026 e 2027, que não são considerados nessas projeções e podem intensificar ainda mais esses efeitos.

Outro aspecto levantado foi a redução da ajuda oficial de governos ao desenvolvimento e do financiamento humanitário, que podem ameaçar e comprometer o progresso alcançado no combate à fome no mundo nos últimos anos.

O diretor-geral da FAO, QU Dongyu, priorizou a necessidade de fortalecer os sistemas agroalimentares de todas as partes do mundo.

“Crises recentes – desde desastres naturais como a pandemia da doença do coronavírus (covid-19) até desastres causados pelo homem, como pontos críticos, a guerra na Ucrânia, a crise de Gaza e a recente interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz – evidenciaram tanto a resiliência dos sistemas agroalimentares quanto a necessidade de fortalecê-los ainda mais para melhor servir às pessoas mais vulneráveis do mundo, agricultores e consumidores”, concluiu. 

 

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